Uma gota de tinta se espalha na água; ela não costuma se reunir sozinha em uma gota perfeita. Essa assimetria cotidiana está ligada à entropia, uma grandeza física que ajuda a explicar por que distinguimos passado e futuro. Em Tenet, de Christopher Nolan, a ideia vira uma máquina narrativa: pessoas e objetos teriam sua entropia “invertida” e passariam a cruzar o tempo na direção oposta.

Em poucas palavras

  • Entropia mede quantas formas microscópicas um sistema pode assumir.
  • Ela tende a aumentar em sistemas isolados, em média.
  • Tenet transforma essa tendência real em uma hipótese de viagem temporal fictícia.

Entropia não é apenas “bagunça”

A explicação mais popular diz que entropia é desordem. Ela funciona como primeira imagem mental, mas é incompleta. Em física, a entropia está ligada ao número de microestados: as muitas maneiras invisíveis pelas quais moléculas, átomos ou outras partículas podem se organizar sem alterar aquilo que vemos em grande escala.

Imagine um gás inicialmente preso em metade de uma caixa. Ao abrir a divisória, as moléculas se espalham e ocupam todo o volume. Elas até poderiam, em princípio, voltar a se concentrar espontaneamente em um lado, mas existem incomparavelmente mais arranjos microscópicos correspondentes ao gás espalhado. Por isso, o estado espalhado é o esperado.

A entropia também descreve a dispersão de energia. Um café quente esfria porque sua energia térmica se distribui pelo ar, pela xícara e pela mesa. A energia não desapareceu — a primeira lei da termodinâmica trata dessa conservação —, mas ficou mais espalhada e menos disponível para realizar trabalho útil.

A seta que aponta para o futuro

A segunda lei da termodinâmica afirma que, em um sistema isolado, a entropia total não diminui em processos espontâneos. Ela pode permanecer igual em um caso idealizado e reversível, mas os processos reais envolvem atrito, troca de calor, mistura e outras formas de dispersão que produzem entropia.

Essa lei é estatística, não uma proibição mágica de qualquer flutuação minúscula. Em escalas muito pequenas, partículas podem ocasionalmente apresentar comportamentos que parecem ir na direção contrária. Mas, para objetos macroscópicos, como um ovo quebrado ou uma sala cheia de ar, a reversão completa seria tão improvável que não é observada na prática.

A seta do tempo não vem de um relógio apontando para o futuro, mas da enorme vantagem estatística dos estados em que energia e matéria estão mais dispersas.

Muitas leis microscópicas funcionam quase do mesmo modo se imaginarmos um filme rodando ao contrário. Já a nossa experiência cotidiana não: lembramos do passado, vemos causas antes dos efeitos e encontramos calor fluindo do quente para o frio. A entropia conecta essas duas escalas e dá uma direção reconhecível aos processos do mundo real.

O que Tenet chama de inversão

No universo de Tenet, uma tecnologia fictícia altera a entropia de pessoas e objetos. Depois de atravessar uma máquina chamada catraca, um personagem “invertido” continua sentindo o próprio corpo e seus pensamentos avançarem normalmente. Porém, em comparação com o ambiente, ele passa a se deslocar para o passado.

É por isso que o filme mostra duas setas temporais coexistindo. Para quem não foi invertido, uma pessoa invertida parece agir de trás para frente: pode correr em meio a destroços que parecem se recompor ou ver uma bala retornar à arma. Para a pessoa invertida, entretanto, é o restante do mundo que parece estar invertido.

A ideia das máscaras de oxigênio segue a mesma lógica interna do roteiro. Se as reações químicas e as trocas com o ambiente estivessem orientadas ao contrário, o ar comum não serviria da maneira usual para o metabolismo daquele personagem. O filme deixa claro que não se trata apenas de “andar de ré”, mas de pertencer a uma direção temporal diferente.

Onde a ciência termina e a ficção começa

A base real de Tenet é a associação entre entropia e a seta do tempo. Mas inverter a entropia de uma pessoa não é, segundo a física conhecida, um método para fazê-la viajar ao passado. Um refrigerador, por exemplo, reduz a entropia de seu interior ao retirar calor, mas faz isso consumindo energia e liberando ainda mais entropia para o lado de fora. Ele não rejuvenesce os alimentos nem inverte o relógio.

O problema central é que ninguém, nem objeto algum, está isolado do ambiente. Um corpo troca calor, luz, ar, matéria e informação continuamente com o mundo. Para inverter de fato toda essa rede de interações, seria necessário controlar não só o personagem, mas também os efeitos que ele deixa ao redor — algo muito além do que as teorias físicas atuais permitem descrever como viagem no tempo.

A origem última da seta do tempo continua sendo uma questão aberta em cosmologia e fundamentos da física. Sabemos que o Universo primordial tinha condições muito especiais, compatíveis com baixa entropia em aspectos importantes; explicar plenamente por que elas eram assim ainda é tema de pesquisa. Tenet não resolve esse enigma: transforma-o em ficção elegante.

Em resumo, o filme supõe uma inversão localizada de entropia para criar personagens em setas temporais opostas. Na natureza, a entropia explica a direção preferencial dos processos, mas não fornece uma catraca para levar pessoas ao passado.

Fontes e leitura adicional