O maior mapa 2D do Universo reúne quase 4 bilhões de objetos
O DESI Legacy Imaging Surveys reuniu 5,6 trilhões de pixels e quase 4 bilhões de fontes em 75% do céu. Entenda por que esse atlas é 2D — e como o DESI acrescenta profundidade.

A ideia essencial antes do aprofundamento
O novo DESI Legacy Imaging Surveys reúne 5,6 trilhões de pixels e cerca de 3,9 bilhões de fontes em aproximadamente 75% do céu. Foram combinadas 263.407 exposições obtidas ao longo de 13 anos, em luz visível e infravermelha.
“2D” significa que o atlas registra sobretudo posição aparente, brilho, cor e forma. O instrumento DESI usa uma seleção desses endereços, separa a luz em espectros e mede o desvio para o vermelho para acrescentar profundidade.
Como chegamos a essa resposta
Um mapa do Universo pode ser gigantesco e ainda assim não mostrar profundidade. A nova edição do DESI Legacy Imaging Surveys reúne 5,6 trilhões de pixels e cerca de 3,9 bilhões de fontes celestes em aproximadamente três quartos do céu. Ela registra onde os objetos aparecem e quanta luz chega em diferentes faixas, mas não fornece uma distância espectroscópica para cada ponto.
Essa distinção é a chave para entender o anúncio feito pelo NOIRLab em 10 de agosto de 2026. O atlas 2D e o mapa 3D produzido pelo instrumento DESI têm nomes parecidos e nasceram do mesmo projeto científico, porém respondem a perguntas diferentes. Um encontra e descreve alvos no céu; o outro acrescenta uma coordenada de profundidade a uma seleção deles.
Um retrato montado ao longo de 13 anos
O novo mapa não saiu de uma única câmera nem de uma única noite. A equipe combinou 263.407 exposições de três levantamentos terrestres. O DECam Legacy Survey usou a Dark Energy Camera, de 570 megapixels, instalada no telescópio Víctor M. Blanco de 4 metros, no Chile. O Mayall z-band Legacy Survey observou com o telescópio Mayall de 4 metros, no Arizona. O Beijing–Arizona Sky Survey empregou o telescópio Bok de 2,3 metros, também no Arizona. Dados infravermelhos da missão espacial WISE complementaram as imagens ópticas.
Mais de 160 cientistas participaram da coleta, e uma equipe de 20 pessoas produziu o conjunto final. O resultado combina luz visível e infravermelha próxima em um mosaico que cobre cerca de 31 mil graus quadrados do céu extragaláctico. A documentação técnica chama esta versão de Data Release 11, ou DR11, e registra aproximadamente 3,9 bilhões de fontes únicas.
“Fonte”, aqui, é um termo de catálogo: uma detecção de luz que o processamento separou do fundo e modelou. Muitas fontes são estrelas ou galáxias; outras correspondem a quasares, asteroides e fenômenos transitórios. O número não deve ser lido como quatro bilhões de galáxias confirmadas.
O que significa um mapa em duas dimensões
Imagine a superfície interna de uma esfera envolvendo a Terra. Para localizar um ponto nessa esfera, bastam duas coordenadas angulares, equivalentes celestes à longitude e à latitude. O Legacy Surveys acrescenta medidas de brilho, cor, forma e qualidade da observação, mas sua estrutura básica continua sendo uma projeção no céu: direita–esquerda e cima–baixo, sem uma distância individual precisa para todos os objetos.
Isso não torna o mapa simples. Cada trecho reúne exposições feitas em condições diferentes, precisa ser calibrado e dividido em pequenas regiões processáveis. O software detecta fontes, compara modelos de objetos pontuais e extensos e mede o fluxo em diferentes filtros. O produto é ao mesmo tempo imagem e banco de dados pesquisável.
Como o DESI acrescenta a terceira dimensão
O Dark Energy Spectroscopic Instrument usa o atlas de imagens como uma lista de endereços. Montado no telescópio Mayall, ele posiciona 5.000 fibras ópticas sobre alvos selecionados e separa a luz de cada um em um espectro. Linhas conhecidas aparecem deslocadas para comprimentos de onda maiores conforme o Universo se expande. Medindo esse desvio para o vermelho, os pesquisadores estimam a posição do objeto ao longo da linha de visada e constroem um mapa tridimensional em espaço de redshift.
Em abril de 2026, o DESI concluiu antes do prazo a área de seu levantamento original: 14 mil graus quadrados. O instrumento havia observado mais de 47 milhões de galáxias e quasares, além de mais de 20 milhões de estrelas da Via Láctea. São muito menos objetos do que os quase quatro bilhões do atlas 2D, mas cada galáxia ou quasar com redshift confiável carrega a informação adicional necessária para estudar a distribuição cósmica em profundidade.
Por isso, os dois recordes não se contradizem. O Legacy Surveys cobre uma área angular maior e cataloga muito mais fontes; o DESI mede espectros de uma amostra menor e transforma posições aparentes em uma reconstrução 3D de alta resolução. Comparar apenas o número de objetos esconderia a diferença entre fotografar o endereço e medir a distância até ele.
O que os pesquisadores podem procurar
Um atlas amplo e profundo funciona como referência para quase qualquer observação nessa região do céu. Astrônomos podem examinar candidatos a lentes gravitacionais, comparar imagens tomadas em épocas diferentes para investigar supernovas e outros eventos transitórios, selecionar galáxias para espectroscopia e estudar como matéria visível se distribui em grandes escalas. Versões anteriores dos dados já foram citadas em mais de 1.800 artigos científicos.
O mapa também apoia pesquisas sobre matéria escura e energia escura, mas não resolve esses problemas sozinho. A matéria escura pode ser investigada por efeitos gravitacionais, como a distorção da luz de galáxias de fundo. A energia escura exige combinar distâncias, redshifts e padrões de agrupamento ao longo da história cósmica. O atlas fornece alvos e imagens; a inferência física depende de medições adicionais e modelos testáveis.
Como os dados são públicos, a utilidade vai além das equipes que os produziram. O Legacy Survey Sky Viewer permite percorrer o céu no navegador, enquanto o Astro Data Lab oferece consultas ao catálogo. O conjunto também pode servir de referência para comparar observações do Vera C. Rubin Observatory e, no futuro, do telescópio espacial Nancy Grace Roman, além de ajudar no treinamento e teste de ferramentas de inteligência artificial para grandes volumes de dados astronômicos.
O que o título “maior mapa do Universo” não quer dizer
O atlas não é uma fotografia de todo o Universo existente. Ele cobre cerca de 75% da esfera celeste e privilegia o céu extragaláctico que não é encoberto pela concentração de estrelas e poeira da Via Láctea. A profundidade e a combinação de filtros também variam conforme a região; a documentação da DR11 distingue áreas com uma, duas ou três passagens e mostra que nem todo ponto possui cobertura equivalente em todas as bandas.
Há ainda limites de sensibilidade e de resolução. Objetos fracos demais podem não ser detectados; fontes próximas podem se misturar; uma classificação automática pode precisar de confirmação. E, como toda observação astronômica, o mapa registra apenas a luz que alcançou os instrumentos, não matéria invisível de forma direta.
O feito está em construir uma base comum, rastreável e explorável: bilhões de endereços celestes reunidos por telescópios diferentes e transformados em um catálogo coerente. O mapa 2D não compete com o DESI 3D. Ele é a camada sobre a qual a profundidade começou a ser medida — e continuará sendo uma porta de entrada para perguntas que seus criadores ainda não imaginaram.
Fontes para continuar
O que esta matéria sustenta — e onde termina a certeza
Este quadro separa evidência, limite e interpretação para que a conclusão possa ser conferida, não apenas aceita.
A DR11 reúne 5,6 trilhões de pixels, aproximadamente 3,9 bilhões de fontes únicas e 263.407 exposições obtidas ao longo de 13 anos. O mapa cobre cerca de 31 mil graus quadrados, aproximadamente 75% do céu.
O catálogo de imagens não determina sozinho a distância precisa, a natureza definitiva ou a história física de cada fonte. A DR11 ainda será explorada em novos estudos, e possíveis resultados sobre matéria escura ou energia escura não podem ser antecipados a partir do comunicado.
Tratar os quase quatro bilhões de registros como quatro bilhões de galáxias com distâncias medidas, ou imaginar que o atlas seja uma fotografia completa de todo o Universo.
O mapa 2D funciona como um catálogo de endereços: registra a direção e características visuais. O DESI visita uma seleção desses endereços com espectroscopia e acrescenta profundidade. Ter mais endereços não significa possuir uma terceira coordenada para todos eles.
Números gerais e história do projeto foram conferidos no comunicado do NOIRLab; área, cobertura e limitações foram verificadas na documentação da DR11; os números do mapa 3D foram confrontados com o comunicado oficial do Berkeley Lab.
Fernando Moreira seleciona a pergunta, confronta as fontes, organiza a explicação e assume a revisão final. Ferramentas de inteligência artificial podem apoiar pesquisa e rascunho, mas não substituem a conferência das afirmações nem a responsabilidade editorial.
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